A Mata Atlântica protegida

 

“Quando o pessoal chegou aqui dizendo que se comia o fruto da juçara, a gente achou bem esquisito… Isso é coisa de passarinho… As pessoas tinham até medo de experimentar. Para nós, a palmeira juçara dava palmito.”

No começo, a resistência. Mas depois que alguns mais corajosos experimentaram o suco feito com os frutos da palmeira juçara, a Euterpe edulis, o destino dessa palmeira que já estava na lista de espécies em extinção na Mata Atlântica, mudou. E mudaram também as possibilidades de proteção e recuperação desse bioma – a Mata Atlântica .

Mudas de Juçara para reflorestamento (Foto: Coletivo Catarse).

Mudas de juçara para reflorestamento (Foto: Coletivo Catarse).

Quando os primeiros europeus atracaram suas naus em terras sul americanas, se depararam com uma mata exuberante, com milhares de árvores de todos os tipos e tamanhos, uma infinidade de animais que não conheciam. E, claro, uma população também diversa, do extremo sul ao extremo norte, habitando de forma plena e adaptada esse ecossistema complexo, que hoje é denominado Mata Atlântica.

Cinco séculos depois, pouco resta dessa paisagem original e dos habitantes que contribuíram para sua diversidade e riqueza. Dona Dalva, que abre esta história falando de sua experiência com o suco da juçara, é uma das remanescentes dessa população original, dos caiçaras que ocupam o litoral e enfrentam ainda hoje muitos desafios para manterem seu modo tradicional de vida. Ela é uma liderança comunitária muito ativa, vice presidente da Associação dos Moradores do Sertão de Ubatumirim, comunidade tradicional que fica no município de Ubatuba, no Litoral Norte do Estado de São Paulo.

balao-pg8

“Eu, pra dizer bem a verdade, não conhecia o fruto da juçara – completa Dona Dalva.  Eu vivi aqui no Ubatumirim minha vida toda. Criei oito filhos e agora são cinco netos. Essas famílias aqui de volta… todo mundo conhecia o palmito, pra comer, pra vender… mas o fruto não. Agora com a produção do suco da juçara mudou tudo!”

Dona Dalva fala com alegria da grande mudança em sua vida depois que conheceu, experimentou e gostou do suco da polpa do fruto da juçara e passou a integrar uma rede de produtores, pesquisadores e divulgadores dos benefícios desse alimento poderoso que ainda permite a preservação da mata em pé.

Suco da Juçara (Foto: Coletivo Catarse).

Suco da juçara (Foto: Coletivo Catarse).

Dona Laura, liderança do Quilombo da Fazenda, também em Ubatuba, é mais uma representante dessa população que ajudou a preservar a mata com sua forma de ocupação. Mas ela admite que a comunidade também cortava o palmito para vender, sem ter consciência dos danos ambientais dessa prática.

“A gente aqui não sabia que a juçara estava em extinção. Vendia sem perceber que estava colaborando para acabar com a mata. Ninguém tinha ideia de que se podia comer o coquinho. Mas quando eu experimentei… eu gamei!!! Se tiver suco todo dia eu tomo, fiquei viciada.”

 

Reserva da Biosfera, Patrimônio Nacional

 

Juçara em meio a Mata Atlântica (Foto: Coletivo Catarse).

Juçara em meio a Mata Atlântica (Foto: Coletivo Catarse).

A importância da Mata Atlântica levou a UNESCO a declara-la Reserva da Biosfera. Mesmo no Brasil sua importância foi reconhecida como Patrimônio Nacional pela Constituição de 1988. Para proteger os 8,5% de remanescentes florestais da Mata Atlântica começaram a ser criadas as unidades de conservação que esbarraram nos interesses econômicos de exploração dessas áreas. Mas também revelaram uma realidade ainda não muito divulgada: foram as populações tradicionais que cuidaram e manejaram essas florestas para que elas sobrevivessem até nossos dias: indígenas, quilombolas, caiçaras, gente que sempre viveu com a mata, fazendo pequenas roças, coletando plantas, caçando, como a família de Dona Dalva e Dona Laura. Mesmo com a exploração ilegal do palmito que contribuiu para que a palmeira Euterpe edulis esteja em risco de extinção nesse bioma, essas comunidades ajudaram a preservar a floresta e agora, engajados no Projeto Juçara, podem reverter a situação.

 

Conhecendo e atuando na Mata Atlântica

 

Para tentar compreender e atuar nesse bioma, o Fundo Socioambiental CASA criou um programa especial de apoio a projetos e iniciativas e vem trabalhando em parceria com outras instituições e organizações na identificação dos problemas e investindo nas soluções possíveis.

O apoio ao turismo de base é um dos caminhos, contribuindo para a permanência de famílias e comunidades em áreas ameaçadas da Mata Atlântica, além de projetos com associações de pescadores e agricultores familiares, apoio à resistência das comunidades a grandes obras e intervenções destrutivas do meio ambiente, reflorestamento, enfrentamento do avanço da soja, do eucalipto e de mineradoras, projetos de divulgação e informação envolvendo publicações, cursos e documentários, formação e construção de capacidades, políticas públicas.

 

Uma Rede do bem, pela Mata e pela vida

 

Primeiro encontro da Rede Juçara, projeto apoiado pelo Fundo Socioambiental CASA (Foto: Coletivo Catarse).

Primeiro encontro da Rede Juçara, projeto apoiado pelo Fundo Socioambiental CASA (Foto: Coletivo Catarse).

Mas a história da Rede Juçara, com dezenas de ramificações, em todos os estados do litoral brasileiro, do Rio Grande do Sul ao Espírito Santo, talvez seja a que tem trazido mais esperanças na proteção da Mata Atlântica que ainda existe e na recuperação de áreas degradadas, com a participação ativa das comunidades, como protagonistas, beneficiárias e multiplicadoras dessa experiência. A história de Dona Dalva continua:

“Esse trabalho já tem oito anos. Eu estou dentro do projeto faz cinco anos. De lá para cá já aumentou muito os pés de juçara na mata, aqui no quintal, onde eu moro, e no sítio onde eu passei minha infância. Eu gosto muito do trabalho. Junto com as outras mulheres, a gente cuida de lavar e limpar bem os frutos, depois tem um choque para amolecer a carne da fruta e aí vai para despolpar e virar o suco. Quem sobe nas árvores para pegar o cacho são os homens e os rapazinhos. Isso é difícil, é muito alto e tem que ter muito cuidado para não machucar a juçara. Eles usam um saco de estopa que amarram para ir apoiando os pés para subir. Essa alça a gente chama de picunha.”

 

Aprendendo sobre a Juçara

 

Dona Dalva diz que hoje as crianças da comunidade estão acostumadas a tomar o suco da juçara.

“A gente bate com outras frutas diferentes também, fica gostoso demais e faz bem para a saúde. A comunidade fornece para a merenda escolar. Assim, a criançada nas escolas se alimenta de coisa sadia, da região e aprende a dar valor para os frutos da mata”.

(Foto: Coletivo Catarse)

Hoje as crianças já estão acostumadas com o suco da juçara, que além de nutritivo é uma delícia! (Foto: Coletivo Catarse).

Assim como outras comunidades que resistiram na Serra do Mar, entre São Paulo e Rio de Janeiro, essa comunidade tem seu território em sobreposição com áreas do Parque Estadual da Serra do Mar (PESM) e do Parque Nacional da Serra Bocaina (PNSB), o que traz restrições para o uso que a comunidade sempre fez do território. O aproveitamento do fruto da Juçara trouxe um novo alento às comunidades, melhorando sua dieta alimentar, gerando renda, reforçando a relação com o território e o trabalho envolvendo as várias gerações.

“O Projeto Juçara foi muito importante para nossa comunidade – diz Dona Laura. Não é só um suco, mudou nossa vida. Hoje nós temos um carinho especial pela juçara. Ela melhorou a saúde das crianças porque é um alimento cheio de propriedades boas, trouxe mais alegria, parceiros, possibilidades. Nosso território foi reconhecido como Quilombo pela Fundação Palmares em 2005 mas até hoje a questão da terra não foi legalizada. Estamos dentro do Parque da Serra do Mar e isso prejudica muito as possibilidades de termos projetos, de conseguirmos sobreviver na nossa terra. Por isso a importância desse projeto.”

Frutos da Juçara (Foto: Coletivo Catarse).

Frutos da juçara (Foto: Coletivo Catarse).

Dona Dalva também diz se alegrar ao ver as palmeiras novas crescendo na mata: “Depois que aproveita o suco, com os coquinhos a gente faz muda para plantar na mata e também joga eles assim, direto na terra, para nascer mais palmeiras. Isso tudo a gente aprendeu com o pessoal do IPEMA que veio aqui mostrar o valor da juçara e ensinar os procedimentos.”

Hamilton Bufalo é um dos “pais” da Rede Juçara. “A Rede nasceu numa conversa de bar, durante um encontro do PDA no Rio de Janeiro em 2007. O trabalho de pesquisa e implantação de projetos de manejo da juçara já vinha acontecendo há anos, de forma isolada em várias regiões. Mas começou a ganhar vulto a partir de 2008, com a organização da Rede. O cara às vezes está lá, trabalhando duro, sozinho, não tem noção da importância ou do caminho que o trabalho pode tomar. Quando pode participar de oficinas, se encontrar com outras pessoas que vivem a mesma questão, aí a troca é muito estimulante”.

 

Conflitos entre Unidades de Conservação e a população tradicional

 

IPEMA (Foto: IPEMA).

Sede do IPEMA em Ubatuba (Foto: IPEMA).

Hamilton  começou como voluntário no Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica – IPEMA, uma organização da sociedade civil de interesse público com sede em Ubatuba. Por seu envolvimento e trabalho direto com as comunidades, reforça a questão do conflito com as Unidades de Conservação.

“A legislação não prevê essa convivência e dificulta todas as iniciativas. As comunidades de repente não podem mais fazer roça de mandioca e banana, que davam o seu sustento. Não podem tirar material para o artesanato, não conseguem mais sobreviver dentro de seu território. O manejo da juçara veio trazer novas possibilidades. O projeto foi muito bem aceito porque o retorno é visível e rápido. O suco teve boa aceitação, as sementes voltam para a mata e repovoam com uma espécie que estava em extinção. Começou devagar, com uma produção bem artesanal e aos poucos foi crescendo, porque as pessoas viam o resultado de seu empenho. Hoje, aqui em São Paulo, a comunidade de Ubatumirim é a que mais evoluiu, tem uma cozinha de processamento, equipamentos, fornece para a Prefeitura, São mais de 20 famílias com vários produtos a partir desse projeto da juçara.”

Encontro da Rede Juçara (Foto: Coletivo Catarse).

Encontro da Rede Juçara (Foto: Coletivo Catarse).

O Fundo Socioambiental CASA tem um papel importante na construção dessa Rede. Apoiou o encontro da Rede Juçara que aconteceu em 2010 em Registro, no Vale do Ribeira, em São Paulo, reunindo mais de 300 pessoas, num total de 15 organizações parceiras além de outras instituições convidadas. E apoiou o trabalho direto de algumas comunidades como o Quilombo da Fazenda, a Associação de Ubatumirim, a comunidade caiçara da Praia do Bonete, assim como vem apoiando inúmeras comunidades na construção de processos agroflorestais, quem vem na sequência da juçara, pois ela é apenas uma das espécies que pode ser sustentávelmente manejada na Mata Atlântica para melhorar a vida das populações tradicionais.

A Rede Juçara reúne organizações de várias regiões do país, cada uma com sua realidade e especificidade. A ESALQ- Escola Superior de Agronomia Luiz de Queirós, tem sido um parceiro importantíssimo nas pesquisas e análises que resultam no desenvolvimento dos projetos. Além da importância para o bioma, já que a palmeira Euterpe edulis estava em extinção e agora, onde os projetos estão implantados, ela se recupera bem, trazendo contribuição também para a fauna local, a intervenção humana ainda alterou o quadro sócio cultural dessas áreas, com a valorização do trabalho, o empoderamento das comunidades, o reforço da autoestima, melhoria na segurança alimentar e a geração de renda.

Desafios para o futuro

 

(Foto: Coletivo Catarse)

Os Sistemas Agroflorestais com espécies nativas recuperam o solo e geram renda para os produtores. (Foto: Coletivo Catarse).

“Cada comunidade tem seu ritmo” – diz Hamilton. “As comunidades indígenas e quilombolas envolvidas também no manejo da juçara avançam dentro de sua cultura e tempo. Mas também sentem os benefícios. Ainda tem muitas questões a serem resolvidas. O mercado é o grande gargalo. Essas comunidades não tem a manha para a comercialização. Por isso, precisamos investir agora nessa área comercial, dando ferramentas para que os produtores cheguem ao consumidor de forma direta”.

As comunidades tradicionais que só agora se aproximam dessa fruta já incorporaram a juçara a seus pratos típicos, inventaram novos pratos,  criando uma nova gastronomia caiçara. O Quilombo da Fazenda tenta ainda ativar um restaurante para servir as novas criações, mas enquanto isso não se consolida, lançaram dois livros de receitas com pratos usando a juçara.

Culinária quilombola do Quilombo da Fazenda, em Picinguaba e pratos feitos com Juçara (Foto: Quilombo da Fazenda).

Culinária quilombola do Quilombo da Fazenda, em Picinguaba e pratos feitos com juçara (Foto: Quilombo da Fazenda).

“Eu faço um estrogonofe de lula com juçara que é uma maravilha! Você tem que vir aqui provar.” – convida Dona Laura. E para quem quiser se divertir com a música, a dança, a alegria e os sabores caiçaras fica o convite para a Festa da Juçara, que acontece sempre no mês de julho, nas comunidades de Ubatumirim e Quilombo da Fazenda.

 e-147x147 Texto por: Angela Pappiani – Jornalista, produtora cultural na Ikore 

e conselheira no Fundo CASA desde sua fundação.