O coração arrancado da terra

 

O rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Samarco, causou uma enxurrada de lama que inundou várias casas no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, na Região Central de Minas Gerais. (Foto: Rogério Alves/TV Senado)

O rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Samarco causou uma enxurrada de lama que destruiu todo o distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, na Região Central de Minas Gerais. (Foto: Rogério Alves/TV Senado)

As imagens do tsunami de lama com rejeitos de minério de ferro devastando cidades, paisagens, rios e até o litoral capixaba estão bem vivas na memória dos brasileiros. Uma tragédia provocada pelo rompimento da barragem de rejeitos de Fundão, pertencente à mineradora Samarco, joint-venture da Vale e BHP Billiton, que causou danos ainda não mensurados, com consequências diretas para mais de 3 milhões de pessoas que vivem no Vale do Rio Doce e que afetarão muitas gerações futuras. O que se tem até agora é a certeza da morte de pelo menos 20 pessoas, de centenas de milhares de peixes e outros animais aquáticos e silvestres, a extinção de toda possibilidade de vida nas áreas afetadas pela lama e de consequências ainda não contabilizadas na área do oceano Atlântico e ecossistemas periféricos, do Espírito Santo ao sul da Bahia.

 

O Grande Avô Watu

 

Entre os milhões de pessoas afetadas diretamente por este crime ambiental, está o povo indígena Krenak que lutou quase um século pelo reconhecimento legal de seu território às margens do Watu, como denominam o Rio Doce. Num território devastado por pastos e monoculturas, os Krenak buscaram recuperar a mata, a fauna e voltaram a realizar suas cerimônias para o Grande Avô – Watu. Mas as novas gerações serão privadas desse convívio com o Rio Doce, enquanto o povo, hoje, não tem como sobreviver sem as águas e os peixes do rio.

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Indígena do povo Krenak recolhe peixe morto às margens do Rio Doce. (Foto: Vanderley Elias Melo)

O desastre social e ambiental provocado pela empresa Samarco na cidade de Mariana se repete, em proporções menores mas não menos devastadoras, em muitas regiões da América do Sul e até em outros continentes onde essas e outras mineradoras atuam, extraindo o coração da terra, drenando sua energia vital para alimentar a sociedade de consumo cada vez mais voraz.

No polo de Carajás, nos estados do Pará, Maranhão e Tocantins, em todo o estado de Minas Gerais,  no interior da Bahia, nas regiões de fronteira do Brasil com a Bolívia, Paraguai e Argentina, no Peru, Colômbia e várias partes da Pan-Amazônia as minas de ferro, estanho, níquel, bauxita, ouro, diamantes e pedras preciosas e outros minerais como o urânio, desalojam populações de forma violenta, poluem o ar e as águas, drenam o lençol freático, impactam o meio ambiente. Isso sem uma legislação clara, sem fiscalização do poder público ou normas de proteção aos ecossistemas e às pessoas, com o único foco no lucro que engorda as contas bancárias dos acionistas das grandes empresas.

 

Articulando os impactados em muitos continentes

 

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“ Estivemos nessa região de Mariana uns meses antes do desastre com a Caravana Sul do Movimento Internacional dos Atingidos pela Vale. Visitamos esses lugares que hoje não existem mais.” Carolina Moura, conselheira e parceira do Fundo Socioambiental CASA desde sua fundação, fala com emoção e indignação sobre o desastre ambiental ocorrido em dezembro de 2015. Ela é membro do Movimento Internacional dos Atingidos pela Vale, formado  por pessoas e organizações do Brasil, Chile, Peru, Argentina, Moçambique, Canadá e Indonésia que se articulam e se mobilizam nos países onde a Vale opera com a proposta de levantar informações, trocar experiências, dar visibilidade aos problemas socioambientais encontrados, e confrontar os métodos e o discurso da mineradora.

Carolina vive em Minas Gerais, no município de Casa Branca, próximo a Belo Horizonte. “Aqui mesmo, em Casa Branca vivemos sob a ameaça de expansão de minas de ferro que avançam sobre áreas de proteção ambiental colocando em risco principalmente o lençol freático que abastece a região. Há centenas de represas de rejeito sem nenhuma fiscalização que a qualquer momento também podem se romper e causar novas tragédias.”

O Fundo CASA vem apoiando dezenas de projetos em toda América do Sul voltados ao empoderamento de populações vitimas da ação de mineradoras e de seus subprodutos como estradas de ferro e portos para escoamento da produção, desmatamentos e monoculturas de eucalipto para produzirem carvão.

 

Missionários Combonianos pela justiça 

 

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Ato em defesa das comunidades impactadas pelo Programa Grande Carajás. (Foto: www.justicanostrilhos.org)

No extremo norte do Brasil, onde a mineração também transforma a paisagem e as culturas na área do Polo Carajás, a campanha Justiça nos Trilhos, sob coordenação dos Missionários Combonianos, foi apoiada pelo Fundo CASA e hoje é um importante aliado das populações na busca de condições de vida dignas. O Padre Dario Bossi fala assim dessa parceria:

“O Fundo CASA é um aliado muito além do momento do financiamento a projetos, é também parceiro na ação política, nas campanhas. Nos apoiou a sair do território local e ter incidência mais alta e também a receber parceiros e aliados políticos para trocas importantes. O Fundo CASA é um ator político na justiça ambiental, nos ajudando em nosso empoderamento, a estruturar nossa rede num momento inicial difícil, garantindo a base para consolidar o nosso trabalho.”

“E agora, uma coisa muita bonita que está acontecendo é que estamos tendo a honra de costurar outras relações com entidades e comunidades mais de base, indicando-os para apresentar projeto para o Fundo CASA, como a comunidade de Pequiá.”

Papa Francisco recebe os delegados ao Capítulo Geral da Congregação dos Missionários Combonianos. Entre eles estava o padre Dario Bossi, de camisa azul na fotos.

Papa Francisco recebe os delegados ao Capítulo Geral da Congregação dos Missionários Combonianos. Entre eles estava o padre Dario Bossi, de camisa azul na fotos. (Foto: www.justicanostrilhos.org)

“Assim como fomos favorecidos, agora ajudamos outros a serem também, assim o caminho continua. Acreditamos que quando o apoio é bem feito, numa dinâmica de relações, não só financeiro, mas político, o potencial é muito grande. É nos territórios que as coisas acontecem, como sementes que plantamos e se disseminam, gerando outras sementes. Uma rede que conecta comunidades atingidas entre elas e com entidades e movimentos externos que podem fazer a diferença. Tivemos dois apoios muito importantes do Fundo CASA no nível de articulação da Rede Internacional de Atingidos pela Vale em projetos que tinham por proposta reforçar a luta, com apoios para o encontro para a Plenária, a participação de lideranças atingidas na Assembleia da Vale e na Rio +20. ”

 

Estratégias inovadoras

 

O Movimento Internacional dos Atingidos pela Vale é inovador na sua forma de composição, reunindo uma ampla gama de interesses representados como famílias afetadas pela ação da mineradora, trabalhadores que se sentem explorados em minas de ferro, carvão, níquel, cobre; sindicalistas, ambientalistas, feministas, políticos; estudantes, professores; indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pescadores, camponeses… E também inova na busca de novos espaços de justiça, além dos espaços tradicionais,  nas ferramentas e estratégias de ação. A linguagem de campanha, utilizando “relatórios sombra” como o  Relatório de Insustentabilidade, a produção de material gráfico “espelhado” nos produzidos pela Vale, mas com informações baseadas em pesquisas e fatos reais, fazendo a contrainformação são importantes ferramentas com resultado positivo na divulgação de informações que quase não chegam ao público.  Trabalhos estes apoiados também pelo Fundo CASA.

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Movimento Internacional dos Atingidos pela Vale.

Outra metodologia inovadora é a dos Acionistas Críticos, que já dura seis anos, com pessoas do movimento que, pela aquisição de ações da companhia na bolsa de valores, tem acesso às Assembleias da Vale, com direito a questionamentos e depoimentos.

 

O capital não tem bandeira

 

Gabriel Strautman, economista do Instituto de Políticas Alternativas para o Cone Sul- PACS, um dos criadores dessa articulação, fala da importância do apoio do Fundo CASA às ações do Movimento que vem reunindo pessoas de diversos países em trocas de informações e compartilhamento de conhecimentos e estratégias para a luta por direitos diante da ação da Vale:

Gabriel Strautman. (Foto: TV Senado)

Gabriel Strautman. (Foto: TV Senado)

“O apoio do CASA tem sido de fundamental importância porque viabilizaram os encontros internacionais entre os diversos atores nas articulações do Movimento. E esses encontros são os momentos mais ricos da articulação, reunindo pessoas e permitindo a troca de conhecimentos, dando visibilidade aos impactos de uma empresa mineradora brasileira, não só no Brasil, mas em muitos outros países onde ela atua. Principalmente neste momento em que se discutem as relações Sul/Sul, outras formas de globalização, a articulação trouxe para esse debate uma empresa brasileira, que não é do hemisfério norte, que historicamente sempre foram as mais criticadas, que reproduz um padrão, um modelo de desenvolvimento nos países vizinhos e em outros continentes com a mesma ação predatória de empresas do hemisfério norte, mostrando que o capital não tem bandeira.”

 

Protegendo o coração da Terra

 

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Imagem de satélite da foz do rio Doce invadida pela lama. Foto: NASA Earth Observatory image by Joshua Stevens, using Landsat data from the U.S. Geological Survey.

Estes breves relatos de apoiados e parceiros do Fundo CASA deixam claro a importância do controle social sobre questões tão impactantes como o da mineração.  Somente uma sociedade informada, atuante, que compreende seus direitos de exigir políticas de fiscalização e vigilância sobre empresas extrativistas,  que cobra responsabilidade das empresas, que demanda compensações compatíveis com o tamanho dos desastres provocados por elas — como esse da Samarco/Vale/BHP —, e que  se prepara para intervir diretamente nesses processos,  tem condições de virar esse jogo.

O que o Fundo CASA faz é viabilizar ações de controle social, por acreditar que somente a sociedade ciente e empoderada tem condições de transformar profundamente seu destino, de criar novos caminhos que protejam as pessoas e toda a vida natural da qual dependem.  Quem sabe um dia aprenderemos de nossos povos tradicionais, e maiores cuidadores desse planeta, que para continuarmos vivendo, o coração não pode ser arrancado da terra.

 e-147x147 Texto por: Angela Pappiani – Jornalista, produtora cultural na Ikore 

e conselheira no Fundo CASA desde sua fundação.