Plantando esperança no

campo

 

Grupo Trama na AGRIMINAS. Foto: AMA LAPINHA

Grupo Trama na AGRIMINAS. Foto: Amalapinha

Nas montanhas de Minas Gerais, como em outros cantos ainda rurais de nosso país, a vida parece correr lenta e tranquila, simples e feliz como em tantos poemas e letras de músicas que sempre louvaram a vida boa do campo.

Mas, em pleno século 21, quando se chega perto, o que se vê são poucas comunidades que resistiram. Formadas, muitas vezes, apenas de velhos que ficaram para trás em lugares abandonados pelo poder público depois que os filhos foram em busca de trabalho e estudo nas cidades. Gente que perdeu suas raízes e a forma tradicional de vida, e não conheceu o futuro tão esperado.

Festa da Lapinha. Foto: Amalapinha

Festa da Lapinha. Foto: Amalapinha

Gente com conhecimento tradicional sobre o meio ambiente, sobre técnicas de cultivo e convivência com a natureza se viam sem espaço, sem incentivo, sem acesso a novas tecnologias que facilitassem suas vidas, ou a serviços básicos de saúde e educação, abandonados à própria sorte.  Junto com isso, o incentivo ao agronegócio e ao extrativismo ia ocupando mais e mais território, enquanto um novo modelo de sociedade atraía fortemente os jovens para as cidades.

 

Garantindo direitos à vida boa do campo

 

Como preservar a vida boa do campo, garantindo acesso aos direitos básicos, a uma vida mais digna, ao intercâmbio com a população urbana, mantendo os cultivos orgânicos, o cuidado com as fontes de água limpa?  Esse era um dos temas de atenção do Fundo CASA, uma estratégia de fortalecimento dessas populações que viabilizasse acesso a tecnologias limpas e apropriadas, trazendo melhorias para a vida dos agricultores familiares, que, afinal, são os que garantem o abastecimento da maior parte dos alimentos consumidos na cidade.

Entrega de mudas para reflorestamento. Foto: Amalapinha

Entrega de mudas para reflorestamento. Foto: Amalapinha

Simone Fontes Pasko e Lucas Miyahara seguiram seu coração. Ainda muito jovens, saíram da cidade no começo dos anos 2000 para buscar a vida simples e feliz no campo.

“A gente sentia falta de qualidade de vida, da liberdade, da segurança de uma vida mais simples, na zona rural. Nós fomos para Minas Gerais buscar esse sonho, num lugar sem energia elétrica, com água boa, limpa e abundante onde a gente fizesse nossa casa de barro e palha, como os antigos faziam, onde nosso sustento saísse da força de nossas próprias mãos, onde a gente criasse nossos filhos com liberdade e valores, com uma educação do caráter.”

Casa de feitio e sede da AMA LAPINHA. Foto: AMA LAPINHA.

Casa de feitio e sede da Amalapinha. Foto: Amalapinha

 

A sabedoria dos antigos e a busca por direitos

 

Simone conta sua história com emoção. Com muito amor e força de vontade, ela e Lucas construíram esse jeito novo de viver, se comoveram com as primeiras colheitas, com a generosidade e abundância da natureza, com a sabedoria e o conhecimento da gente do campo sobre o cultivo da terra e outros mistérios.

Mas logo começaram a perceber a dificuldade da vida rural, a ausência de infraestrutura e oportunidades, a falta do médico, do dentista, de ferramentas e materiais. As pessoas da região estavam indo embora. Os jovens saíam em busca de emprego porque ali não havia nada para gerar renda. Uma situação de contrastes entre a fartura da terra e a carência de acesso aos bens e direitos básicos. Com o conhecimento que tinham sobre as leis, as políticas públicas, os direitos básicos, eles começaram a questionar a realidade local.

Jovens trançadeiras em busca de sua identidade. Foto: AMA LAPINHA

Jovens trançadeiras em busca de sua identidade. Foto: Amalapinha

 

Os produtos da roça chegam à cidade

 

Como conta Simone, as pessoas não deixam sua terra porque querem. Elas têm amor pela terra, valorizam a vida que têm. “É mesmo por necessidade. E começamos a pensar numa forma de mudar isso. A Rede Terra Viva, que já contava com o apoio do Fundo CASA, foi o primeiro trabalho, a primeira tentativa de reunir o excedente do que era produzido na região para levar para a cidade e gerar alguma renda para a comunidade.

Grupo Trama na AGRIMINAS. Foto: AMA LAPINHA.

Grupo Trama na AGRIMINAS. Foto: Amalapinha

As pessoas da cidade gostavam muito dos produtos daqui da roça. Comentavam que a banana era mais doce, mais gostosa, o café era melhor, a farinha mais saborosa. Claro! Tudo era orgânico, produzido com amor e cuidado. Isso começou a gerar alguma renda, as famílias foram se envolvendo, se animando… Assim surgiu a ideia de fazermos a Associação dos Moradores, Agricultores e Apicultores da Lapinha.

No começo, foram cinco famílias mais jovens, gente que queria ficar na terra, não queria ir para a cidade, que se reuniram e  ajudaram a escrever a proposta do primeiro projeto de construção de uma Casa Comunitária de Feitio, para o preparo da rapadura e da farinha. Todos tinham no fundo do quintal um espaço para o feitio, mas muito precário. Com uma casa comunitária podíamos ter mais equipamentos e facilitar a produção.

Feitio de Melado. Foto: AMA LAPINHA.

Feitio de Melado. Foto: Amalapinha

Confiança e flexibilidade garantem o primeiro passo

 

Enviamos para uma instituição, mas esse projeto não foi aprovado. Então, a Carolina Moura, que nós conhecíamos da Rede Terra Viva, já trabalhava com o Fundo CASA e sugeriu que a gente mandasse o projeto. E foi aprovado! Foi uma alegria!  Foi muito importante ter esse primeiro apoio mesmo sem a gente ter um CNPJ, sem estar oficializado. O Fundo CASA confiou. Esse é o diferencial que eu sempre falo para todo mundo: o Fundo CASA não teve burocracia para aceitar nossa proposta, teve flexibilidade.”

Festa da Lapinha. Foto: AMA LAPINHA

Festa da Lapinha. Foto: Amalapinha

Apoiadas pelo Fundo Socioambiental CASA, as mulheres da Amalapinha construíram a Casa de Feitio, equipada com motor a gasolina para moer a cana e ralar a mandioca, investiram em formação e capacitação, principalmente em planejamento, gestão financeira e comercialização, e saíram em busca de alternativas para aumentar a renda familiar e melhorar a qualidade de vida de si mesmas e de suas famílias.

“Formamos nossa Associação Amalapinha. E isso foi um furacão em nossas vidas ! Depois da associação encontramos muita gente, conhecemos outras associações, começamos a participar de Conselhos, de reuniões…. Teve o empoderamento da comunidade e ao mesmo tempo a responsabilidade cresceu. Para as pessoas que queriam ficar na roça foi a realização de um sonho.”

Festa da Lapinha. Foto: AMA LAPINHA.

Festa da Lapinha. Foto: Amalapinha

 

“Sem um primeiro apoio, nosso trabalho não sairia do lugar.”

 

As mulheres da Lapinha buscaram lá no fundo da memória a habilidade de trançar a palha de indaiá, conhecimento passado de geração a geração e, com as técnicas e práticas de gestão e produção aprendidas nas oficinas de capacitação apoiadas pelo Fundo CASA, a tradição se transformou em um bom negócio com a produção do chapéu indaiá, muito apreciado na região. Depois vieram as formas de papel manteiga para as panificadoras da cidade. Com o projeto Arteforma as mulheres descobriram novas habilidades e uma fonte de renda que só vem crescendo.

Chapéu de palha Indaiá. Foto: AMA LAPINHA

Chapéu de palha Indaiá. Foto: Amalapinha

“Daí para frente realizamos vários projetos, fomos identificando áreas de atuação, maneiras de manter a comunidade unida e com recursos e direitos garantidos. A Amalapinha foi como um filho que nós geramos, vimos nascer, crescer. Aprendemos com ela, fomos nos educando, e, mesmo que um dia a gente não esteja mais aqui, ou que a associação termine, o que criamos sempre vai estar dentro da gente, no coração. Começou com um sonho, mas hoje é realidade. Ao longo destes anos, além do apoio constante do Fundo CASA, recebemos outros apoios, encontramos mais parceiros. Mas se não tivesse um primeiro apoio, nosso trabalho não sairia do lugar.”

 

A força do coletivo garantindo as conquistas

 

Festa da Lapinha. Foto: AMA LAPINHA.

Festa da Lapinha. Foto: Amalapinha

Simone fala com muita paixão desse trabalho e apresenta como grande conquista da Amalapinha  a construção do coletivo, a valorização das pessoas e de seu empenho na realização dos sonhos, a forma como se costuram as relações.

“Aprendemos a enxergar e valorizar o dom das pessoas. Esse é o caminho, a costura das relações. O Fundo CASA nesses 10 anos também tem bordado as relações, baseado no dom de cada um, formando um coletivo forte. Hoje estamos muito à frente do ponto em que começamos,  a verdade que aprendemos a cultivar vai chegar longe. Isso talvez não possa ser visualizado, mas está dentro, na raiz, na força do coletivo. Você tem que querer o bem para o lugar e para as pessoas que estão ao seu redor, aquilo que você quer para você mesmo, tem que desejar para a comunidade. Esse é o segredo e o tesouro.”

Simone Fontes Pasko.

Simone Fontes Pasko.

Esse é também o grande bem e o tesouro que acompanha o Fundo Socioambiental CASA em seus 10 anos de vida.  Agradecemos à Simone e sua comunidade pelo grande empenho em melhorar esse mundo a partir de suas próprias vidas.  É para apoiar essas iniciativas que o Fundo CASA existe.

 

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Texto por: Angela Pappiani – Jornalista, produtora cultural na Ikore

e conselheira no Fundo CASA desde sua fundação.