Todos os tons de verde

 

Vicente de Paula e esposa Dona Rita - Carrancas - Buriti - MA (Foto: acervo Fórum Carajás).

Vicente de Paula e esposa Dona Rita – Carrancas – Buriti – MA (Foto: acervo Fórum Carajás).

“Eu nasci e fui criado aqui em Buriti, meu pai já vivia aqui, desse mesmo jeito. Não tenho vontade de sair, tenho amor por este lugar. Me dá alegria viver aqui, ver a quantidade de frutas no cerrado, a caça, a água… Eu tenho um bom pedaço de cerrado em pé, preservado. Tem um tanto de bacurizeiro… fruta boa! Se aproveita tudo dela. A semente tem um óleo rico, a gente faz sabão. A madeira é muito boa, madeira fria que protege a água na terra.  Se eu der as costas, o povo vem aqui destruindo tudo. Se eu sair, isso acaba tudo. Vão desmatar, o chão fica desprotegido, assim vai acabar com as nascentes, com os rios.”

Essas palavras do Sr. Vicente de Paula, da cidade de Buriti, na região do baixo Parnaíba, no Maranhão, expressam o sentimento de milhares de outros homens e mulheres que nasceram e viveram ao longo de décadas da agricultura familiar e do extrativismo numa vasta região, diversa e rica, entre o sul do Pará, norte do Tocantins e o estado do Maranhão. Lugar de muitos tons de verde, onde a floresta amazônica se encontra com o cerrado, com os cocais e depois se transforma em caatinga.

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Serra Vermelha – Palmeira do Piauí (Foto: Fundo CASA)

O começo do fim

 

O que Seu Vicente e centenas de comunidades não podiam imaginar é que bem ali perto, debaixo da floresta, havia a maior reserva de ferro de alto teor do mundo. Além de ouro, estanho, bauxita (alumínio), manganês, níquel, cobre e outros minérios raros. Uma “descoberta” que mobilizaria o governo federal e muitos outros parceiros para a implantação do Programa Grande Carajás, batizado assim em homenagem à serra dos Carajás, local de sua implantação na década de 1980.

Mineração em Carajás - PA (Foto: acervo Fórum Carajás).

Mineração em Carajás – PA (Foto: acervo Fórum Carajás).

Desde então, a diversidade de biomas, os muitos tons de verde que eram a riqueza dessa vasta região do país, vem se transformando e dando lugar ao marrom da fuligem dos minerais e à paisagem monótona do pasto e das grandes plantações de soja e eucalipto.

Para o Seu Vicente, para os 10 povos indígenas que ainda vivem nessa região, para as catadoras de coco de babaçu, ribeirinhos, quilombolas, extrativistas, esquecidos do poder público, mas tocando a vida com coragem, o que tem valor é a terra,  são as plantas e os animais, a água limpa e a vida tranquila que tinham.

Barragem da UHA Tucuruí - PA (Foto: acervo Fórum Carajás).

Barragem da UHA Tucuruí – PA (Foto: acervo Fórum Carajás).

Realidade totalmente transformada num curto espaço de tempo. Para a consolidação desse ambicioso projeto, foi implantada uma infraestrutura pesada que incluiu a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí e da Estrada de Ferro Carajás – que percorre quase 1000 quilômetros até o Porto de Ponta de Madeira, em São Luis, desmatando centenas de hectares da floresta Amazônica e do cerrado. Construção de siderúrgicas, polos de produção de ferro gusa,  além de programas complementares com a entrada do agronegócio, trazendo gado, soja e eucalipto para substituir a paisagem natural, vieram na sequência.

 

A ilusão do progresso

 

Num primeiro momento as pessoas chegaram a se animar com a propaganda que se fazia: o progresso estava chegando, milhares de empregos seriam gerados, a vida das comunidades finalmente iria melhorar. Mas as promessas logo se revelaram ilusão. Comunidades inteiras foram deslocadas de onde viviam,  gerando desestruturação social, inchamento das cidades, violência, acidentes às margens da ferrovia e trabalho análogo ao escravo nas carvoarias. Enormes áreas de floresta foram desmatadas pela indústria madeireira e também para produção de carvão, elemento indispensável para transformar o minério de ferro em ferro -gusa, matéria prima do aço.  Danos ao lençol freático, poluição dos rios e da atmosfera, desertificação – são mais alguns dos muitos efeitos da implantação desse grande programa.

Carvoarias na Chapada do Veredão -Chapadinha - MA. Destruição do cerrado para produção de carvão. (Foto: acervo Fórum Carajás).

Carvoarias na Chapada do Veredão -Chapadinha – MA. Destruição do cerrado para produção de carvão. (Foto: acervo Fórum Carajás).

Assim como Seu Vicente, centenas de famílias foram ameaçadas, perseguidas, sofreram violências e represálias. Muitas perderam seu modo tradicional de vida e não perceberam nenhuma melhoria, muito pelo contrário.

Mas alguns resistem, insistem em ficar em seus territórios, em lutar por melhorias nas áreas afetadas e por seus direitos.

 

A esperança que transforma

 

“Com a ajuda do Fórum Carajás e com o projeto que o Fundo Casa apoiou, eu consegui ficar aqui, na minha terra” – diz Seu Vicente. “Consegui enfrentar uma pressão muito grande para vender. O recurso veio na hora certa. Eu estava já desesperado, numa situação difícil, quase saindo… Muitos amigos e vizinhos não aguentaram a pressão e venderam. O dinheiro que receberam não deu pra nada. Era só ilusão. Ficaram sem a terra, sem lugar pra viver, sem ter como trabalhar. Dinheiro não resolve o problema. Com o projeto, deu um novo ânimo pra gente. Fizemos reflorestamento de bacurizeiro. Os filhotes nascem bem, é fácil replantar. Daqui a pouco vai ter muito mais fruta e animais. O rio fica protegido e vai ter mais nascentes.”

Bacurizeiros no Baixo Parnaíba (Foto: acervo Fórum Carajás).

Bacurizeiros no Baixo Parnaíba (Foto: acervo Fórum Carajás).

O Fórum Carajás, criado em meados da década de 1990 para dar conta da complexidade local, hoje é um importante parceiro do Fundo Socioambiental CASA, indicando comunidades e projetos com grande necessidade de apoio e potencial impacto na realidade local.

 

De apoiados a conselheiro

 

Mas antes de serem parceiros, o Fórum Carajás foi um dos apoiados pelo Fundo CASA. No momento em que mais precisavam de apoio para se organizarem, foi o recurso do Fundo CASA  que manteve a rede viva e atuante, permitindo que cumprissem seu papel de acompanhar a implantação dos grande programas desenvolvimentistas e os impactos na região como a infraestrutura instalada e o avanço da monocultura, colher informações junto às comunidades locais impactadas, dar visibilidade a essas informações, buscar o empoderamento das comunidades.

Agricultores exibem seus certificados, concedidos a aqueles que preservam o cerrado - Araça - Buriti-MA (Foto: acervo Fórum Carajás).

Agricultores exibem seus certificados, concedidos a aqueles que preservam o cerrado, em Araça – Buriti – MA (Foto: acervo Fórum Carajás).

 

A invasão da soja

 

Em 2005,  com um programa específico para áreas afetadas pelo avanço da soja do Fundo CASA, com recursos de um pool de fundações holandesas (Doen, Cordaid, Solidaridad), do Blue Moon Fund e do Global Greengrants Fund, o Maranhão aparece como uma área prioritária,  em especial o baixo Parnaíba onde o avanço da expansão agrícola, com a entrada da soja e também do eucalipto que alimenta os fornos das siderúrgicas e da cana, ameaça o que resta do cerrado, dos cocais e da caatinga.

Correntão usado derrubada cerrado - Buriti - MA (Foto: acervo Fórum Carajás).

Correntão usado derrubada cerrado – Buriti – MA (Foto: acervo Fórum Carajás).

 

A União na busca de soluções

 

Mayron Regis, de São Luis do Maranhão, é jornalista e desde 2001 integra o Fórum Carajás, com uma relação próxima com as comunidades dessa região. Ele nos fala de sua trajetória e trabalho:

“Várias questões me levaram para esse caminho,  uma visão política de questionamento, uma preocupação de como intervir na realidade do Maranhão, onde há muita riqueza em contraste com extrema pobreza, buscando uma melhoria nas condições de vida das comunidades. Para isso era importante divulgar para o público essas realidades, escrever artigos, promover a articulação política, desenvolver projetos específicos.”

Mayron (camiseta vermelha) conversa com comunidade Matinha - Buriti - MA (Foto: acervo Fórum Carajás).

Mayron (camiseta vermelha) conversa com comunidade Matinha – Buriti – MA (Foto: acervo Fórum Carajás).

Assim surge a parceria com o Fundo CASA, indicando projetos da região com base na relação estabelecida com os grupos, pessoas e comunidades, conhecendo o contexto e a realidade local, isso agregado à urgência, como em situações de desmatamento, perdas do patrimônio natural, ameaças à agricultura familiar, à permanência das pessoas no campo, buscando viabilidade econômica para as famílias.

 

10 anos de parceria

 

O Fundo CASA foi fundamental ao longo destes 10 anos de parceria, apoiando mais de 20 projetos nessa área, através do Fórum Carajás. Sem esse apoio fundamental o trabalho não avançaria como avançou, estaria capenga.

São Raimundo - Urbano santos - MA (Foto: acervo Fórum Carajás).

São Raimundo – Urbano Santos – MA (Foto: acervo Fórum Carajás).

Entre os projetos aprovados nessa região estão ações contra o desmatamento em áreas indígenas, oficinas, encontros, capacitação de comunidades em agrofloresta, reflorestamento, aproveitamento econômico de frutos do cerrado, combate ao trabalho escravo, além de ações diretamente relacionadas à mineração, que tem arrancado o coração dessa terra.

Tudo para que todos os tons de verde retomem essa linda paisagem.

 e-147x147 Texto por: Angela Pappiani – Jornalista, produtora cultural na Ikore 

e conselheira no Fundo CASA desde sua fundação.