Transformando o turismo

 

em aliado

 

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Pescadores da Prainha do Canto Verde – CE. (Foto: prainhacantoverde.org)

Praias de mar verde esmeralda ou azul profundo, mata atlântica emoldurando a paisagem, mangues e restingas pulsando de vida. Rios de água translúcida com peixes coloridos nadando por entre jardins submersos. Comida de fogão a lenha, céu estrelado, cantorias em roda. Paisagens assim “de cartão postal” felizmente ainda existem, espalhadas pelas áreas costeiras ou pelo interior,  do Atlântico ao Pacífico, na grande América do Sul que compartilha a mesma natureza e diversidade cultural, exuberantes e preservadas.

Mas não é tão simples assim a manutenção dessas paisagens e culturas tão diversas e ricas. O movimento contrário é muito forte:  ocupação desordenada das cidades que se expandem, o modelo de turismo predatório que desaloja comunidades tradicionais para implantação de imensos resorts, além dos projetos desenvolvimentistas que passam por cima dos biomas para instalarem grandes obras de engenharia como barragens, plantas industriais, portos e exploração mineral.

 

Os guardiões da vida

 

Prainha do Canto Verde - Ceará (Foto: prainhacantoverde.org)

Prainha do Canto Verde – Ceará (Foto: prainhacantoverde.org)

Comunidades tradicionais, povos indígenas, ribeirinhos, extrativistas, quilombolas tem lutado com coragem, buscando aliados e estratégias para manter sua forma tradicional de vida, gerar renda e implantar negócios sustentáveis. A luta pela permanência em territórios de ocupação tradicional que, justamente por manterem essa forma de ocupação mais orgânica se mantiveram protegidos, com diversidade cultural e biológica, é também uma das estratégias do Fundo Socioambiental CASA.

O apoio a comunidades, projetos e iniciativas que garantam a continuidade desses espaços humanos de convivência harmoniosa com a natureza e produção cultural, com capacitação e empoderamento, informação e comunicação e ainda infraestrutura para garantir geração de renda e implantação de iniciativas de turismo comunitário vem beneficiando milhares de pessoas e garantindo melhoria nas condições de vida desses povos.

“Aqui nós vivemos felizes, com a garantia deste espaço, numa luta constante. Tenho orgulho de minha origem, sou descendente de povos tradicionais daqui, de pescador, de agricultor.  A gente se identifica como povo tradicional deste lugar. A gente guardou no rosto, na fisionomia, muito dos indígenas, nossos antepassados. E também o jeito de viver aqui nessa terra, com respeito pela natureza e também fazendo muita festa.”   Assim Painho, como é conhecido Roberto Carlos de Lima Ribeiro, apresenta sua comunidade da Prainha do Canto Verde, próxima a Fortaleza, no Ceará.

Pescadores tradicionais da região da Prainha do Canto Verde - Ceará (Foto: prainhacantoverde.org)

Pescadores tradicionais da região da Prainha do Canto Verde – Ceará (Foto: prainhacantoverde.org)

“A luta é grande, contra gente muito poderosa, mas com humildade, fraternidade e a presença de Deus a gente vai vencendo. Hoje somos exemplo para outras comunidades, mostrando que é possível a gente viver bem, ter um lugar para morar, trabalho, ter um negócio. “

 

Desafios e sonhos que se multiplicam

 

Da mesma forma que Painho, Robson Dias Possidonio , da ABAT – Associação dos Barqueiros e Pescadores Tradicionais de Trindade no litoral sul do Rio de Janeiro, as comunidades do Quilombo da Fazenda e da Juréia,  uma em Ubatuba, no litoral norte,  e outra em Iguape, no extremo sul de São Paulo, também vencem as pressões e alteram suas realidades com projetos apoiados pelo Fundo CASA.

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Robson Dias Possidonio, presidente da ABAT – Associação dos Barqueiros e Pescadores Tradicionais de Trindade – Rio de Janeiro. (Foto: Attilio Zolin/Fundo CASA)

Essas comunidades enfrentam a especulação imobiliária e as restrições de unidades de conservação como Áreas de Preservação Ambiental  e Parques Ecológicos implantados na área litorânea para barrar o desmatamento da Mata Atlântica. Apesar do aspecto positivo da criação dessas unidades, existe um grave conflito com as comunidades tradicionais que já ocupavam esses locais e que se viram impedidas de usufruir dos recursos naturais de que sempre dependeram para sua sobrevivência não só física mas cultural.

“Eu acho que todos nós causamos algum impacto por viver na terra. As pessoas precisam comer o peixe. Eu acho que a gente causa bem pouco impacto se comparar com os grandes barcos industriais e com as grandes empresas e o que eles fazem hoje. E o Parque não vê isso”. Diz, indignado, Robson que defende o direito de sua comunidade viver do peixe que sempre os alimentou e que agora está sob proteção do Parque Nacional da Serra da Bocaina que avança sobre o mar.

Caiçaras de Trindade recolhendo a rede na Baía de Trindade. O método de pesca utilizado é artesanal e pouco agressivo para a fauna local, pois apenas os peixes maiores são capturados. (Foto: Attilio Zolin/Fundo CASA)

Caiçaras de Trindade recolhem a rede na Baía de Trindade. O método de pesca utilizado é artesanal e pouco agressivo para a fauna local, pois apenas os peixes maiores são capturados. (Foto: Attilio Zolin/Fundo CASA)

Enquanto prosseguem as negociações com o Parque, a comunidade de Trindade se prepara e busca alternativas para se manter no território ocupado há muitas e muitas gerações.

 

Raízes para serem cultivadas

 

A comunidade do Quilombo da Fazenda, que ainda busca reconhecimento legal por seu território como quilombo, encara o grande desafio de ter sua área tradicional de ocupação se sobrepondo ao Núcleo de Picinguaba do Parque Estadual do Serra do Mar. Com as restrições sobre a forma de ocupação, a comunidade estava se desagregando, com muitas famílias saindo em busca da sobrevivência.

A produção do suco da palmeira Juçara, a construção de uma cozinha comunitária e os programas de recepção a turistas agregando a cultura quilombola, foram soluções encontradas para confrontar a realidade. Da mesma forma, a comunidade de Trindade também se capacitou para fazer passeios de barco com turistas que procuram muito essa praia.  E a Prainha do Canto Verde, com seu projeto de turismo comunitário, conquistou um público ávido pelas belezas da praia e a convivência com a comunidade tradicional, usufruindo da vida simples e saudável.

Culinária quilombola no Quilombo da Fazenda Picinguaba (Foto: quilombodafazenda.org.br)

Culinária quilombola no Quilombo da Fazenda Picinguaba (Foto: quilombodafazenda.org.br)

“O apoio do Fundo CASA foi muito importante, – diz Painho, do Canto Verde. Veio para garantir essa nossa luta, apoiar o trabalho de comunicação e organização, de técnicas de rádio para que os jovens possam refletir sobre a situação que vivem aqui.”

“A ABAT nunca tinha escrito projeto nenhum – explica Robson. Onde a gente ia achar um financiador que ia nos ajudar dessa forma? A gente ficou sabendo que o  Fundo CASA era uma instituição que ajudava pequenas iniciativas como a nossa. Naquele momento apoiavam comunidades que seriam atingidas pela Copa, e o Parque Nacional da Serra da Bocaina era um parque da Copa.”

 

As promessas da Copa e o legado real

 

Barqueiros da ABAT levam um grupo de turistas para passeio. (Foto: Attilio Zolin/Fundo CASA)

Barqueiros da ABAT levam um grupo de turistas para passeio. (Foto: Attilio Zolin/Fundo CASA)

Robson fala do primeiro projeto que a Associação dos Barqueiros e Pescadores Tradicionais de Trindade elaborou, com apoio do IPEMA – Instituto de Permacultura, e Ecovilas da Mata Atlântica – parceiro importante do Fundo CASA. Esse programa do Fundo CASA foi criado especialmente para apoiar comunidades impactadas pela Copa do Mundo. Muitos projetos, tanto em áreas urbanas quanto no litoral e interior, foram parte dessa estratégia de fortalecimento da população diante de grandes obras e iniciativas governamentais para receber os turistas durante a Copa do Mundo de 2014.

Um desses programas governamentais era o “Parques da Copa”, iniciativa do Ministérios do Meio Ambiente e do Turismo que selecionou parques federais, estaduais e municipais, localizados próximas ou nas 12 cidades-sede da Copa e previa investimentos de R$ 668 milhões, aplicados na infra estrutura dos parques para receber os turistas e assim prolongar seu tempo de permanência no Brasil.

Esse programa fracassou. Menos de 1 milhão de reais foi efetivamente investido e as comunidades que tinham alguma esperança nos benefícios, assim como a população brasileira como um todo, ficaram sem o tal “legado da Copa”. Mas, de alguma forma, essa iniciativa não realizada do Governo Federal causou efeitos positivos nas comunidades que buscaram, por conta própria, capacitação, informação e mudanças.

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Barqueiros da ABAT aguardam a chegada de turistas para passeio a piscina natural do Caixa D’ Aço, localizada dentro do Parque Nacional da Serra da Bocaina. (Foto: Attilio Zolin/Fundo CASA)

Mesmo povoados mais isolados, no coração do Brasil,  como a comunidade do São Francisco, no Pantanal, encontraram no Turismo de Base uma ferramenta para sua afirmação, articulação com outros parceiros e geração de renda, envolvendo os jovens em atividades que lhes permitem o fortalecimento do pertencimento e a construção do coletivo.

O Fundo Socioambiental CASA apoiou, nesses 10 anos, cerca de 50 projetos que contribuíram para a proteção do patrimônio histórico, cultural e natural, fortalecendo comunidades em seu modo tradicional de vida, contribuindo para a construção de iniciativas de turismo comunitário e permitindo a busca de soluções para as economias locais.

 

 e-147x147 Texto por: Angela Pappiani – Jornalista, produtora cultural na Ikore 

e conselheira no Fundo CASA desde sua fundação.