Um oceano de desafios

 

“Agora dizem que o Brasil está saindo da pobreza, mas, na verdade, temos menos apoio e muito mais problemas hoje. A situação está pior porque os grandes projetos estão acabando com tudo. O governo está passando por cima da natureza e das pessoas, acabando com os manguezais que são a fonte da vida.  E tem também o Polo Industrial e o Porto de Aratu, a refinaria Landulpho Alves, plataformas de petróleo, especulação imobiliária…

Mariselia Carlos Lopes (Nega) - Presidente da Associação de Pescadores da Ilha

Mariselia Carlos Lopes (Nega) – Presidente da Associação de Pescadores da Ilha. (Foto: Erick Sales/ arquivo CESE)

Em 2013 houve uma explosão durante o carregamento de gás propeno no navio Golden Miller, no porto de Aratu, e toda a fumaça tóxica veio para as nossas comunidades, deixando as pessoas doentes, interferindo na nossa vida. Os vazamentos de petróleo são frequentes e atingem o mangue. A violência contra as comunidades é muito grande, a pressão para que a gente entregue a terra, para destruir ainda mais os manguezais com a carcinicultura, com os empreendimentos do Polo de Aratu. Aqui já morreu gente assassinada em emboscada, outros ficaram deficientes por conta de tiro, já envenenaram as fontes de água, mulheres morreram afogadas tentando ir mais longe para coletar seu ganha pão.”

Nega, como é conhecida Mariselia Carlos Lopes, presidente da Associação de Pescadores da Ilha, é pescadora da comunidade de Bananeiras, em Ilha de Maré, e fala com indignação sobre a situação das comunidades dessa ilha na Baía de Todos os Santos, município de Salvador, na Bahia.

Baía de Todos os Santos , Ilha de Maré e Baía de Aratu. Mapa: André Koehne (Wikipedia)

Baía de Todos os Santos , Ilha de Maré e Baía de Aratu. Mapa: André Koehne (Wikipedia)

Mas a realidade descrita por Nega, infelizmente se espalha por toda a costa nordestina, do Maranhão ao sul da Bahia, impactando milhares de comunidades tradicionais que sempre viveram nesses lugares, retirando da natureza seu alimento, seu abrigo, sua medicina e ali produzindo sua cultura, suas festas, sua arte.

 

Compartilhando tradições e desafios

 

Remanescentes de povos indígenas que ainda guardam no corpo e na cultura os traços dos antepassados, aldeias organizadas, quilombos, comunidades de pescadores que vivem há séculos nessa faixa entre o mar e as montanhas compartilham, além do modo de vida muito próximo, os efeitos do modelo de desenvolvimento adotado pelo país.

Festa durante intercâmbio entre extrativistas de Canavieiras e Cassurubá, setembro de 2007 – Caravelas - BA

Festa durante intercâmbio entre extrativistas de Canavieiras e Cassurubá, setembro de 2007 – Caravelas – BA – (Foto: Movimento Cultural Arte e Manha)

Em Caravelas, no extremo sul do Estado da Bahia, também se misturam os povos e as culturas e ali trava-se uma luta pela valorização desse patrimônio cultural e natural, pela recuperação e proteção do meio-ambiente, onde, inclusive está localizado o Parque Nacional de Abrolhos, pela afirmação da identidade  e por direitos  que garantam uma vida mais digna a uma população que há muito tempo foi abandonada pelo poder público.

 

Transformação pela educação e arte

 

Espetáculo de cunho socioambiental - Movimento Cultural Arte e Manha - Caravelas - BA

Espetáculo de cunho socioambiental – Movimento Cultural Arte e Manha – Caravelas – BA – (Foto: Movimento Cultural Arte e Manha)

Jorge Galdino Santana é um dos ativistas do Movimento Cultural Arte Manha, de Caravelas e assim explica o surgimento dessa instituição:

“O movimento de luta através da arte educação surgiu com outros companheiros antes mesmo de eu me juntar a ele.. Quem sabia algo, se juntava para dar aulas e ampliar o movimento de conscientização, de reflexão e organização das comunidades. O grupo se fortaleceu, criou foco e, em 1992,  o Movimento Cultural Arte Manha se constituiu como pessoa jurídica para multiplicar sua ação. As questões socioambientais são intrínsecas, estão presentes em tudo e a instituição se utiliza do audiovisual e das manifestações artísticas como o teatro, exposições e publicações como ferramentas para informar, formar e refletir sobre os problemas da região costeira e na luta para a criação da Reserva Extrativista de Caçurubá. Além de fortalecer a identidade dessa população afro-indígena da região, valorizando seus conhecimentos e artes e investindo na sua autoestima.”

Aulas de dança Afro-Indígena nas tardes de sábados em praça pública (Grupo Umbandaum) - Movimento Cultural Arte e Manha

Aulas de dança Afro-Indígena nas tardes de sábados em praça pública (Grupo Umbandaum) – (Foto: Movimento Cultural Arte e Manha)

As comunidades de Ilha de Maré e de Caravelas, assim como dezenas de outros grupos e associações da área costeira do Nordeste têm sido apoiados com recursos do Fundo Socioambiental CASA numa ação estratégica coordenada com parceiros como o Grupo Ambientalista da Bahia – Gambá, dirigido por Renato Cunha, para fortalecer essas ações de afirmação do modo tradicional de vida que cuida e respeita o ecossistema marinho costeiro.

 

Apoios que formam, geram, criam e dão voz

 

Esses apoios permitiram a realização de oficinas de formação, reuniões e assembleias, criação e fortalecimento de associações e grupos, projetos de geração de renda, de comunicação, audiovisual e divulgação das questões para um público maior.

Seminário sobre Carcinicultura e os impactos nas comunidades em Fortaleza - CE. (Foto: Movimento Cultural Arte e Manha)

Seminário sobre Carcinicultura e os impactos nas comunidades em Fortaleza – CE. (Foto: Movimento Cultural Arte e Manha)

“Há uns anos atrás, – diz Nega – se você falasse comigo eu não ia falar nada… Aprendi na luta. Hoje nós falamos por nós mesmos. Pois nós é que sabemos o que a gente passa aqui. Para eu chegar onde estou, são anos de formação porque, como em todos os movimentos sociais, a grande dificuldade é a formação política, a capacitação para a resistência e a luta pelos direitos, o fortalecimento institucional.

Aí está a grande importância do apoio às pequenas iniciativas, porque o resultado delas é grandioso. Sou testemunha  do valor do apoio do Fundo Socioambiental CASA, fui pessoalmente beneficiada. Hoje, como eu, as mulheres aqui estão preparadas, a juventude está preparada.  Há um tempo atrás algumas instituições que chegaram aqui para fazer estudo de compensação ambiental, remunerados pelas empresas que estavam se instalando, não conheciam nada da nossa realidade, não tinham como elaborar um plano. Quem sabe das nossas necessidades somos nós que sempre vivemos aqui e dependemos desse lugar para continuar vivendo. Hoje, com o empoderamento, não dependemos de ninguém para falar nós, estamos construindo nosso presente e nosso futuro.”

 

Articulações  e crescimento  a partir de muito pouco

 

Reunião do Movimento Cultural Arte Manha - Caravelas - BA

Reunião do Movimento Cultural Arte Manha – Caravelas – BA – (Foto: Movimento Cultural Arte e Manha)

Para o Movimento Arte Manha também o apoio do Fundo CASA trouxe uma mudança significativa para seu crescimento e conquistas:

“O apoio do Fundo CASA veio na hora certa para o nosso fortalecimento. O  trabalho aqui é todo voluntário, mas dependemos da infraestrutura e de recursos para os custos de manutenção. Com essa estabilidade, com computadores, equipamentos e as contas pagas, aí sim, podemos ter mais projetos e atividades, gerando mais trabalho e renda para as comunidades. E também conseguimos encaminhar projetos para outros parceiros. Hoje somos Ponto de Cultura, temos vários documentários premiados, chegando a um público grande. Buscamos fortalecer a territorialidade para promover uma vida boa para as pessoas no campo, nas suas atividades tradicionais, valorizadas e com capacidade para gerar renda. Estamos articulados com outros grupos e procuramos outros caminhos para atingir esses objetivos como o turismo pedagógico e cultural.”

 

GAMBÁ – parceiro e conselheiro desde o começo

 

Renato Cunha - Presidente do Gambá – Grupo Ambientalista da Bahia. Conselheiro e sócio fundador do Fundo Socioambiental CASA. (Foto: Carol Garcia/GOVBA) Foto: Carol Garcia/GOVBA

Renato Cunha – Presidente do Gambá – Grupo Ambientalista da Bahia. Conselheiro e sócio fundador do Fundo Socioambiental CASA. (Foto: Carol Garcia/GOVBA)
Foto: Carol Garcia/GOVBA

Nessa região nordeste do Brasil nosso principal parceiro tem sido o Gambá – Grupo Ambientalista da Bahia, na pessoa de Renato Cunha, conselheiro e sócio fundador do Fundo Socioambiental CASA. Trabalhando desde o começo da década de 1980, Renato é um profundo conhecedor dos problemas, necessidades e lutas nessa área.

“As primeiras lutas do Gambá foram para chamar a atenção da sociedade baiana para a riqueza do seu patrimônio natural, principalmente com relação ao esgotamento de bens como a água, a Mata Atlântica e os seus ecossistemas associados, como dunas, lagoas e manguezais, além dos graves problemas causados pela poluição industrial, pela falta de saneamento básico, pelo uso de agrotóxicos, pela poluição das praias, rios e lagoas, pela exploração de urânio e suas consequências.”

Pescadores de Caravelas. (Foto: Movimento Cultural Arte e Manha)

Pescadores de Caravelas. (Foto: Movimento Cultural Arte e Manha)

Além de sacudir a sociedade para o despertar diante de tantos problemas ambientais, através de ações educativas e de mobilização, o Gambá atuou firmemente frente aos poderes públicos para a criação de instrumentos legislativos, executivos e judiciários que garantissem um modelo econômico baseado no desenvolvimento sustentável e na proteção do meio ambiente para as presentes e futuras gerações.

Segundo Renato, “O fortalecimento de pequenas instituições do movimento socioambiental brasileiro foi a grande motivação que tivemos, junto com companheiros ambientalistas, para a criação do Fundo Socioambiental CASA.

Obras da transposição do Rio São Francisco. (Foto: TV NBR)

Obras da transposição do Rio São Francisco. (Foto: TV NBR)

A existência no Brasil, e nos demais países da América do Sul, de uma cidadania ativa preocupada com as injustiças ambientais, precisa ter o apoio e a solidariedade necessária para que possa desenvolver ações e aglutinar pessoas que combatam o modelo predatório vigente e busquem soluções sustentáveis em nível de cada território, potencializando redes de conexões. Essas iniciativas precisam inclusive ganhar maior escala e serem muito mais visíveis para a sociedade. O Fundo CASA tem exercido este importante papel e assim nos mobiliza a continuar vinculados a este trabalho.”

Ainda nessa região nordeste o Fundo CASA apoiou projetos que tinham como foco a transposição do Rio São Francisco, a mineração de urânio na cidade de Caitité, onde está a maior reserva mundial desse mineral, além de iniciativas de proteção e recuperação da Mata Atlântica, com apoio a comunidades locais, alcançando mais de 168 projetos apoiados ao longo de 10 anos.

Assista o vídeo “É tudo mentira”.

 

 e-147x147 Texto por: Angela Pappiani – Jornalista, produtora cultural na Ikore 

e conselheira no Fundo CASA desde sua fundação.