Uma história de amor

10 anos

 

“Solo le pido a Dios, que el dolor no me sea indiferente, y que la muerte no me encuentre vacía y sola sin haber hecho lo suficiente”.

 

Este verso, da canção de León Gieco perpetuada na voz de Mercedes Sosa, reflete com muita clareza o que move todos nós que fazemos parte do Fundo Socioambiental CASA:  não nos vemos como meros espectadores de um mundo com tantas necessidades, sem fazer o possível, e por vezes o impossível, para contribuir de alguma forma. De seus fundadores, equipe, conselheiros e parceiros, aos mais de 1000 grupos apoiados em 11 países da América do Sul durante toda a sua história, existe algo muito forte que une as pessoas que acreditam que as coisas podem melhorar no mundo, que existe um lugar devido e de honra para todos os humanos, todos os seres e todas as formas de vida que compartilham este nosso Planeta Lar.  E que se há algo que ameaça a vida de um ser, ameaça a vida de todos.  Portanto, mesmo que não pareça “suficiente”, todos podem sim fazer algo.

 

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Alexandre Araújo, CaroLina Campos, Alcides Faria, Tamara Mohr e Renato Cunha

 

Resiliência perante dificuldades

 

O que aprendemos, nestes 10 anos, conhecendo e apoiando tantos grupos em lugares tão remotos, quase esquecidos, nos rincões distantes dessa grande América do Sul, é o poder de resistência, de resiliência, de criatividade, de união e solidariedade, de regeneração e de nobreza de que os seres humanos são capazes.  Sob as situações mais difíceis e atrozes, as comunidades se reinventam, buscam ajuda, lutam por soluções.

Vemos todo tipo de dificuldades, e muitas injustiças:  comunidades inteiras, seus rios e sua comida intoxicados durante anos a fio por derramamento de petróleo, por mercúrio da mineração ou agrotóxico das monoculturas,  sem controle ou punição das empresas que os provocaram.  Outras vivem em regiões de tremenda seca, onde os poucos rios existentes são privatizados e, portanto, inacessíveis a elas.  Muitos vivem sob ameaça de morte por tentar proteger as florestas do desmatamento ilegal; ou são assassinados. E ainda outras vivem sob risco de serem removidas forçadamente de seus territórios tradicionais em florestas intactas —patrimônio insubstituível da humanidade —  para fazer lugar para grandes obras que, questionavelmente, servirão para beneficiar pessoas e cidades muito distantes dali, mesmo quando outras soluções existem.

 

… e muita criatividade

 

Há também, claro, muita criatividade para encontrar soluções sustentáveis para melhorar a vida respeitando os frágeis processos da natureza, desde sistemas agroflorestais, produção de energia renovável, aumento do valor de produtos extrativistas para fortalecer as comunidades, soluções criativas para produzir alimentos nas cidades, recuperar-se ou melhor preparar-se para lidar com desastres climáticos e muito mais.

 

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Sérgio Guimarães, Miriam Prochnow e Renato Cunha.

 

A inspiração

 

A criação e manutenção do Fundo Socioambiental CASA nestes últimos dez anos tem sido uma riquíssima aventura de encontros e experiências.  Primeiro fato que nos diferencia: o Fundo CASA não surge para “ser” um “fundo”.  Surge para resolver um problema percebido por um grupo de ambientalistas da América do Sul que não está sendo atendido na escala necessária pelas instituições mais convencionais — a falta de recursos para viabilizar a participação qualificada das populações mais afetadas pela destruição dos grandes ecossistemas (eco-regiões ou biomas).   Elas precisam ter voz direta nas questões que afetam suas vidas, participar, propor e implementar soluções.  É preciso buscar e canalizar esse recurso de forma consistente e estruturada.



De onde viemos

 

O fato pouco conhecido é que esse grupo fundador do Fundo CASA, em 1993, compôs o conselho da Fundação Francisco — o primeiro fundo para pequenos projetos socioambientais criado por brasileiros no Brasil.  Com o fechamento da FF em 99, o Global Greengrants Fund, um fundo dos EUA, convidou o mesmo grupo a recomendar projetos comunitários para a instituição apoiar.  Essa iniciativa permite que o grupo se reúna com mais frequência a partir de 2000 e desenvolva uma estratégia para que pequenos valores, de forma bem pensada e coordenada, realmente façam a diferença para fortalecer as comunidades locais na proteção de seus ecossistemas, dos pampas ao Pantanal, das zonas costeiras ao cerrado, caatinga e às grandes florestas da região.  E essa experiência permite, inclusive, mirar além:  se conseguíssemos mais parceiros financiadores, teríamos um mecanismo perfeito para responder a tantas demandas e criar outras tantas soluções.

O segundo fator determinante acontece em 2004, quando a Fundação Charles Stewart Mott decide apoiar todo o planejamento e viabilização que, no início de 2005, permite a formalização do Fundo Socioambiental CASA.  Nesse início, a ONG holandesa Both ENDS foi também parceira excepcional, trazendo outros financiadores parceiros da Europa.  Esses parceiros originais permaneceram conosco na jornada, e felizmente,  muitos mais chegaram.

 

Sérgio Guimarães, Rubens Harry Born, Amy Shannon, Fabiana Costa, Maria Amália, Tamara Mohr, Jorge Daneri e Marcelo Michelsohn.

 

Dois propósitos

 

O mais genial é que nossa proposta tinha sido compreendida e tomava corpo real, servindo a dois propósitos simultaneamente: viabilizar recursos para os grupos mais remotos e inacessíveis à filantropia formal,  e apoiar instituições filantrópicas e engajadas nos temas da nossa região a investir em uma camada da sociedade à qual não tinham facilmente acesso direto.

 

Porque América do Sul

 

Desde o início era óbvio para nós que a maioria dos ecossistemas da América do Sul são transfronteiriços.  Portanto, para proteger a integridade de cada um, teríamos que atuar como um fundo Sul-Americano que,  por questões de facilidade seria sediado no Brasil. E assim foi desenhado o Fundo CASA.

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Cristina Orpheo e Silvio Sant’Ana

O grande desafio

 

Essa jornada do Fundo CASA encontrou desafios, claro.  Lidar com temas tão diversos e complexos a partir de doações tão pequenas pode parecer impossível, e até sem sentido.  O que um pequenino valor pode fazer para mudar qualquer coisa diante do tamanho das ameaças existentes?  Sozinho e isolado, realmente quase nada.    Percebendo a complexidade de questões às quais o Fundo CASA teria que responder, definiu-se a estratégia que seria usada.

 

Sistemas vivos

 

Vamos olhar de forma diferente para entender o sentido disso.  Olhemos para uma floresta intacta.  Quantos milhões de seres vivem em um metro quadrado de floresta — espécies de insetos, plantas, fungos, répteis, mamíferos, aves?  Quem controla esse ambiente? Quem comanda as relações?  E o corpo humano, quem ordena que processe o alimento, que bata o coração, que respire o ar, separe o oxigênio e dispense o resto?  Esses são sistemas vivos, que funcionam exatamente porque é de sua natureza manter o sistema da vida funcionando.  Se uma árvore cai e abre mais espaço para o sol, rapidamente a floresta se acomoda para fazer lugar para novas vidas.  Se o corpo se enferma, algum estímulo externo pequeno (um chá, um medicamento, uma agulha), cria a condição para que volte ao equilíbrio. Quanto mais rápido a informação da mudança ou desequilíbrio aciona o “sistema de resposta”, mais rápido os ajustes podem ser feitos para re-equilibrar o todo — a retroalimentação rápida (feedback loop) é fundamental.

Muitas vezes, pequenos estímulos, a partir de conhecimento profundo de uma realidade, podem alavancar processos regenerativos importantes para comunidades e seus ecossistemas

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CaroLina Campos e Adriana Ramos.

Como atuar em sistemas complexos

 

O mesmo ocorre com os grandes sistemas de relações que fazem o mundo funcionar.  Muitas vezes, pequenos estímulos, a partir de conhecimento profundo de uma realidade, podem alavancar processos regenerativos importantes para comunidades e seus ecossistemas. A questão é ser parte inerente desses processos para saber exatamente onde intervir.

Esse é o modelo utilizado pelo Fundo CASA, baseado na abordagem do pensamento sistêmico.  Foi desenhado para responder de forma rápida e eficiente aos complexos temas socioambientais da atualidade, pois se alimenta do conhecimento de milhares de pessoas que pertencem a cada região e dedicam suas vidas a essas causas na busca de resultados.  Tudo o que o Fundo CASA apoia é pensado para responder com rapidez e eficiência à complexidade das questões e regiões onde se propõe atuar.

 

Rapidez e eficiência na resposta

 

Para facilitar a chegada de recursos às mãos de grupos que detêm processos e iniciativas que buscam solucionar problemas complexos, precisávamos de um mecanismo de resposta rápida e muito bem informada.  Então, com o aumento dos recursos, ao invés de contar com os poucos conselheiros originais para indicar todos os projetos, passamos a usar uma multitude de estratégias complementares.  Temos centenas de conselheiros, amigos e instituições parceiras que conhecem profunda e amplamente os temas e territórios. Qualquer um deles pode trazer sugestões de grupos comunitários que devem ser apoiados, pois contam com seus olhos conhecedores para serem bem sucedidos. Nossos mais de mil apoiados nos conhecem e sempre sugerem iniciativas que conhecem, o que também fortalece suas redes.  As próprias redes temáticas e regionais diversas das quais fazemos parte (muitas que apoiamos desde sua criação) são por onde encaminhamos nossos editais e informações sobre rodadas de projetos, certos de que reverberam muito além.   Com os anos, claro, ficamos mais conhecidos, e hoje grupos um pouco mais experientes chegam a nós espontaneamente.

 

Equipe CASA 2015 – Rodrigo Moreira, Cláudia Gibeli, Maíra Krenak, Maria Amália, Ana Campbell, Cristina Orpheo, Maha Akamine, Taila Wengrzynek e Attilio Zolin

 

Alcance incomparável

 

Esse formato nos permite um alcance incomparável a importantes e, aparentemente, invisíveis atores sociais. Além disso, como nosso ponto de vista nos permite ter a visão “macro” dos territórios enquanto atuamos no nível micro, vemos a conexão entre vários deles, percebemos como se completam, podendo produzir, em muitos casos, resultados complementares muito maiores e exponenciais.

Todo o nosso cuidado com o recurso que recebemos, e com sua condução de forma delicada e medida para as populações tão hábeis a proteger os ecossistemas da América do Sul, nos remete ao começo desta história.  Se nós, habitantes deste planeta, temos consciência de que nosso modo de vida põe em risco a continuação da vida como a conhecemos, temos que tomar uma atitude.

 

Fazendo a nossa parte

 

E mais, é justo que as populações mais excluídas e esquecidas da nossa região, que vivem nas florestas que dizemos valorizar, nos rios, nas vilas caiçaras, ou até em ambientes inóspitos e desertificados, carreguem sozinhos o peso de proteger e revitalizar esses lugares? E que ainda arquem com os custos disso?  Certamente entendemos que não.

E podemos fazer alguma coisa assim mesmo?  Sem dúvida!

Podemos apoia-los financeiramente, através de mecanismos que garantam idoneidade do processo, como o que o Fundo Socioambiental CASA criou.

 

Reunião de planejamento para criar o CASA em 2003

Maria Amália Souza

 

Escolher a vida

 

É um investimento na viabilidade do nosso próprio futuro, na manutenção das condições de vida deste planeta do qual dependemos. É um ato de solidariedade e de amor para com a vida.  Podemos não conseguir fazer o suficiente, mas tomar o caminho de proteção da Vida é sempre a escolha certa!

Estamos muito felizes de celebrar nossos 10 anos de existência na sua companhia, e na de pessoas tão corajosas e valorosas — os cuidadores da vida!

 

 Assinatura Amália 2011

Maria Amália Souza

Co-Fundadora e Co-Diretora Executiva